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O Caminho Dourado

A escolha pela caserna

Meu pai é policial militar, e sempre moramos perto do quartel, onde passava grande parte do tempo. Em 1989, ele foi transferido para comandar a companhia de Araranguá, e, como a casa do comandante ficava dentro do quartel, minha proximidade com o militarismo — especialmente com a PM — só aumentou.

Em 1992, ingressei no Colégio Militar, concluí o ensino fundamental e cursei todo o médio lá. Essa experiência reforçou minha compreensão de disciplina e hierarquia, confirmando que esse era o caminho que eu queria seguir.

Ao terminar o ensino médio, prestei concurso para piloto da Força Aérea. Fui aprovada e iniciei o curso em Pirassununga em 1996, mas, por ser muito nova e por falta de experiência, não me adaptei. Solicitei desligamento no fim do ano e voltei a Santa Catarina.

Em 1997, a escolha natural foi o curso de Oficiais da PM. Fui aprovada novamente e ingressei em 1998, onde permaneci construindo minha carreira.

Desde criança, me vejo como militar — foi a carreira que escolhi e tenho orgulho de seguir. A disciplina, o senso de dever e a hierarquia moldaram quem sou hoje, e não consigo me imaginar seguindo outro caminho.

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A Transição: O Caminho Dourado e a Família

Desde que me lembro, carregava a sensação de que havia algo errado comigo. Inventava histórias para justificar meu sentimento de inadequação, mas, na adolescência, faltavam referências e palavras para nomear o que eu era. Acabei aceitando, resignada, que jamais mudaria.

O conflito interno, anos se acumulando, adoeceu minha mente e abalou minha família. Foram tempos turbulentos até eu equilibrar meu humor e recuperar minha sanidade. Foi nesse processo, porém, que finalmente me enxerguei com clareza e entendi quem eu realmente era.

Minha esposa foi a primeira a saber e minha aliada incondicional. Não apenas me apoiou emocionalmente: participou ativamente de cada passo — desde minha primeira aparição pública como Lumen até assumir situações que eu ainda não conseguia enfrentar sozinha. Para ela, creio, foi o fim de um sofrimento que, no fundo, também era seu.

Meus filhos, tenho certeza, hoje se orgulham. Têm uma mãe que sabe quem é e luta pelo seu lugar no mundo. Agora, consigo dedicar-lhes atenção plena e estar verdadeiramente presente. As amarras, enfim, se romperam.

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Acolhimento e Raízes em Santo Amaro

Fora da corporação, a reação da sociedade foi uma grata surpresa — mas, no fundo, esperada. Meu círculo de amigos sempre foi progressista, diverso e aberto, então a transição não gerou grandes transtornos.

Também não enfrentei preconceito ou exclusão nos ambientes que frequentava. Em alguns grupos, precisei explicar melhor questões como identidade de gênero e o que significa ser uma pessoa trans ou travesti, mas mesmo assim, tudo fluiu com naturalidade.

Moro em Santo Amaro da Imperatriz desde antes da transição. Minha cidade natal, pela qual tenho um carinho imenso, é majoritariamente católica e conservadora — mas, contradizendo estereótipos, é onde me sinto segura. Como toda cidade pequena, todos se conhecem, e logo se acostumaram com minha presença. Nunca tive problemas com vizinhos ou desconhecidos: não houve olhares constrangedores, cochichos ou risos dissimulados. Aqui, sou apenas mais uma.

Brincando, costumo chamar minha transição de "O Caminho Dourado" — um processo tranquilo, sem conflitos. Tudo correu bem, inclusive minhas relações com amigos e a comunidade. E isso, talvez, seja o maior privilégio de todos.

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O Paradoxo Catarinense

Não é mais questão de opinião, mas fato consolidado: Santa Catarina vive sob estruturas profundamente conservadoras. A prova está no empenho frequente em preservar o status quo e reverter conquistas sociais já estabelecidas. O estado vive um paradoxo gritante: enquanto se orgulha de atrair indústrias e expandir infraestrutura, muitas vezes mantém uma postura moral arcaica, desalinhada com a evolução humanitária. Progresso econômico não basta quando as mentalidades permanecem estagnadas.

Dói-me ouvir alguém se declarar "conservador com orgulho". A história não absolve esse posicionamento. No Brasil Imperial (século XIX), conservadores foram os últimos a defender a escravidão, alegando que a abolição "destruiria a economia". Nos anos 1960, resistiram aos direitos civis nos EUA e, aqui, apoiaram a ditadura militar em nome da "ordem". Nos anos 2000, opuseram-se ao casamento igualitário e, hoje, combatem identidades trans e políticas ambientais urgentes. Em cada era, foram os progressistas que empurraram a sociedade para frente — mesmo quando chamados de "utópicos" ou "degenerados" pelos mesmos que, décadas depois, fingem que nunca estiveram do lado errado da história.

Amo Santa Catarina — suas praias, serras e o acolhimento de seu povo. Mas não podemos normalizar o intolerável quando as instituições insistem em repetir erros do passado.